quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dez milhões protestam contra o juramento às leis racistas em Tel-Aviv




Dez milhões protestam contra o juramento às leis racistas em Tel-Aviv



Protesto contra a emenda à Lei de Cidadania continua – mais de dez milhões de pessoas, no sábado à noite, 16 de outubro, se juntaram ao Gan Meir de Tel-Aviv para protestar contra o juramento à lei racista que foi aprovada pelo governo de direita de Israel, no domingo. Os protestantes também transmitiram, oralmente, seus sentimentos de oposição ao fortalecimento do fascismo em Israel, assim como à crescente defesa para que haja transferência dos cidadãos Arábe-Palestinos para fora de Israel.



Entitulado “Juntos contra o Racismo – Judeus e Árabes marcham pela democracia”, a marcha, que aconteceu do parque Gan Meir até o Ministério da Defesa, trouxe, junto, manifestantes do Partido Comunista de Israel (PCI), da Frente Democrática pela Paz e Igualdade (Hadash), a Juventude Comunista e Meretz, membros de algumas organizações não-governamentais e de grupos ativistas, além de milhares de protestantes pela democracia.



Os participantes carregavam bandeiras com as seguintes frases: “A voz de Lieberman, as mãos de Netanyahu”, “Fascismo e Limpeza Étnica estão se tornando orgulho” e “Juntos defenderemos a Democracia”. Manifestantes carregaram bandeiras vermelhas de Israel, e cantaram, “Liberman, Lieberman, uma fascista e racista também”.



Liderando a procissão estavam membros do Knesset Doy Khenin e Muhammad Barakeh (Hadash), o Secretário Geral do PC Israel, Muhammad Nafa’h, MK Haim Oron (Meretz) e Tamar Gozansky (Hadash), diretor geral do Paz Agora, Yariv Oppenheimer e o líder do Gush Shalom, Uri Avneri.



“Democracia prevalecerá e racismo perecerá. Não há espaço para os jogos, no processo de paz, (do (Primeiro Ministro Netanyahu), de Bibi e Liebeman. A vontade de todos é a implementação dos dois estados. Não haverá nenhuma transferência”, disse MK Barakeh.



Os organizadores do protesto distribuiram panfletos intitulados: “Juramento de Lealdade dos Cidadãos ao Governo Israelense”, onde se lia “Eu prometo não discriminar ou privar qualquer pessoa por causa da sua descendência, sexo, nacionalidade, língua, cor, cultura, status econômico ou qualquer outro fator. Nós exigimos que os membros do Knesset nos sejam leais e nos garantam o direito de viver com dignidade, segurança e esperança para o futuro”.



Falando de um banco no jardim do parque Sarona, MK Khenin disse: “A liberdade democrática corre um grave risco. O pesadelo de uma transferência está se tornando realidade e é por isso que estamos aqui hoje. Esta onda, que começou com os Árabes, chegou, agora, para os Judeus que ousam pensar diferente”. Ele ainda disse: “Ataques em universidades, contra artistas e acadêmicos também se tornaram parte do ‘perigo interno’. Nós estamos diante de uma batalha fatal para o nosso futuro”.



O presidente do Meretz, Haim Oron, falou durante a passeata; “Um espírito mal está rondando esta terra. O teste, à nossa frente, está complicado e complexo. O Knesset tem onze contas pendentes que estão escorrendo fascismo. Precisamos acabar com essa onda”.



“Não podemos construir um país democrático enquanto houve ocupação. Nós clamamos para que o governo e o Knesset congelem todas as leis racistas e continuem congelando a contrução dos assentamentos”, complementou.



Traduzido por Mariângela Marques.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os fantasmas do Chile não estão a ser resgatados

Os fantasmas do Chile não estão a ser resgatados

por John Pilger
Chile's indigenous Mapuche population peacefully protest in Santiago, Chile. (Photo: Patricio / Flickr)

O resgate de 33 mineiros no Chile é um drama extraordinário pleno de emoção e heroísmo. É também uma sorte inesperada para o governo chileno, cuja bondade é registada por uma floresta de câmaras. Ninguém pode deixar de ficar impressionado. Contudo, como todos os grandes acontecimentos nos media, é uma fachada.

O acidente que aprisionou os mineiros não é inabitual no Chile e é a consequência inevitável de um sistema económico brutal que pouco mudou desde a ditadura do gen. Augusto Pinochet. O cobre é o ouro do Chile e a frequência de desastres em minas mantém-se ao ritmo dos preços e dos lucros. Há, em média, 39 acidentes fatais por ano nas minas privatizadas do Chile. A mina San Jose, onde trabalhavam os homens aprisionados, tornou-se tão insegura em 2007 que teve de ser fechada – mas não por muito tempo. Em 30 de Julho último, um relatório do departamento do trabalho advertia mais uma vez de "sérias deficiências de segurança", mas o ministro não actuou. Seis dias depois, os homens estavam sepultados.

Para todo o circo dos media no local do resgate, o Chile contemporâneo é um país não mencionável. Em Villa Grimaldi, nos subúrbios da capital, Santiago, há um sinal que diz: "O passado esquecido está cheio de memória". Isto era o centro de tortura onde centenas de pessoas foram assassinadas e desaparecidas por se oporem ao fascismo do general Pinochet e dos seus aliados de negócios trazidos ao Chile. Sua presença fantasmagórica é encoberta pela beleza dos Andes e o homem que destranca o portão vivia nas proximidades e recorda os gritos.

Fui levado ali numa manhã invernosa de 2006, por Sara De Witt, que fora aprisionada como activista estudantil e agora vive em Londres. Ela recebeu choques eléctricos e foi batida, mas sobreviveu. Depois dirigimo-nos ao lar de Salvador Allende, o grande democrata e reformados que pereceu quando Pinochet tomou o poder em 11 de Setembro de 1973 – o 11/Set da América Latina. Sua casa é um edifício branco sem qualquer sinal ou uma simples placa.

Por toda a parte, aparentemente, o nome de Allende foi eliminado. Só no memorial solitário no cemitério estão gravadas as palavras "Presidente de la República" como parte de uma recordação dos "ejecutados políticos": aqueles "executados por razões políticas". Allende morreu pela sua própria mão enquanto Pinochet bombardeava o palácio presidencial com aviões britânicos, como observou o embaixador americano.

Hoje, o Chile é uma democracia, embora muitos discutam isso, nomeadamente aqueles nos barrios forçados a vasculhar por comida e a roubar electricidade. Em 1990, Pinochet legou um sistema constitucionalmente comprometido como condição para a sua aposentadoria e a retirada dos militares para as sombras políticas. Isto assegura que partidos reformistas, conhecidos como Concertación, estejam permanentemente divididos ou indecisos na legitimação dos desígnios económicos dos herdeiros do ditador. Na última eleição, a Coligação pela Mudança, de extrema-direita, a criação do ideólogo de Pinochet Jaime Guzman, tomou o poder com o presidente Sebastian Piñera. A extinção sangrenta da verdadeira democracia que começou com a morte de Allende estava completa.

Piñera é um multimilionário que controla uma fatia da mineração, da energia e de indústrias de retalho. Ele fez a sua fortuna na esteira do golpe de Pinochet e durante os "experimentos" de mercado livre dos fanáticos da Universidade de Chicago, conhecidos como Chicago Boys. O seu irmão e antigo parceiro de negócios, José Piñera, ministro do Trabalho sob Pinochet, privatizou minas e pensões estatais, além de quase destruir os sindicatos. Isto foi aplaudido em Washington como um "milagre económico", um modelo do novo culto do liberalismo que varreria o continente e asseguraria o controle a partir do Norte.

Hoje, o Chile é crítico para o presidente Barack Obama reverter democracias independentes no Equador, Bolívia e Venezuela. O aliado mais estreito de Piñera é o homem principal de Washington, Juan Manuel Santos, os novo presidente da Colômbia, lar de sete bases dos EUA e de um infame registo de direitos humanos familiar ao chilenos que sofreram sob o terror de Pinochet.

O Chile pós-Pinochet tem mantido nas sombras os seus próprios abusos permanentes. As famílias ainda tentam recuperar da tortura ou do desaparecimento de seres amados suportando o preconceito do Estado e do patronato. Os não silenciosos são o povo Mapuche, a única nação indígena que os conquistadores espanhóis não puderam derrotar. Nos fins do século XIX, os colonos europeus de um Chile independente travaram a sua racista Guerra de Extermínio contra os mapuches que foram relegados como marginais empobrecidos. Durante os mil dias de Allende no poder, isto começou a mudar. Algumas terras mapuche foram devolvidas e uma dívida de justiça foi reconhecida.

Desde então, uma guerra odiosa e em grande medida não relatada tem sido travada contra os mapuche. Foi permitido a corporações florestais que tomassem a sua terra e a sua resistência tem sido recebida com assassínios, desaparecimentos e perseguições arbitrárias sob leis "anti-terroristas" aprovadas pela ditadura. Nas suas campanhas de desobediência civil, nenhum dos mapuches fez qualquer mal. A mera acusação de um latifundiário ou homem de negócios de que os mapuches "podem" atravessar as suas próprias terras ancestrais muitas vezes é o suficiente para a polícia acusá-los de crimes que levam a processos kafkianos com testemunhas sem rosto e sentenças de prisão de mais de 20 anos. Eles são, com efeito, prisioneiros políticos.

Enquanto o mundo rejubila com o espectáculo do resgate dos mineiros, 38 mapuches em greve de fome não têm aparecido nos noticiários. Eles estão a pedir um fim às leis de Pinochet utilizadas contra eles, tais como "incêndio terrorista", e a justiça de uma democracia real. Em 9 de Outubro, todos excepto um dos grevistas de fome terminaram o seu protesto depois de 90 dias sem comida. Um jovem mapuche, Luis Marileo, diz que irá em frente. Em 18 de Outubro o presidente Piñera deve fazer uma palestra sobre "acontecimentos actuais" na London School of Economics. Ele deveria ser recordado do seu suplício e da razão do mesmo.
13/Outubro/2010
O original encontra-se em http://www.truth-out.org/chiles-ghosts-are-not-being-rescued64160

Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/ .
15/Out/10

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Pensar à esquerda, sem vacas sagradas

Pensar à esquerda, sem vacas sagradas

por Grazia Tanta [*]


Ponto de partida
O pensamento único
O modelo social europeu
O fim das nações
União Europeia
O Estado
Uma democracia para consumidores
Um autoritarismo crescente
Os excedentes de vidas humanas
Militarismo
A deriva ambiental



Ponto de partida

Ter certezas é reconfortante. Ter dúvidas é prova de vida. É prova de que se está atento às mudanças, que se está inserido no infinito processo de dúvidas que se tornam certezas e de certezas que são abaladas por dúvidas. O conforto das certezas favorece o desenvolvimento da fé; e a fé não se discute.

Há demasiadas certezas à esquerda, demasiada fé. E quando a realidade desmente as certezas é a realidade que está errada, porque não se acha prescrita no receituário de um pensador político, diminuído ao papel de guru, pelo clero da esquerda.

Pode extrair-se uma amostra de dimensão variável a partir do enxame de questões que a esquerda das rotinas não sabe ou, sobranceira, ignora, porque não incluída nos manuais; ou, pior que tudo, não coloca, por conveniência material dos seus mandarins. Essa esquerda para gozar do conforto do encosto aos financiamentos públicos, rodeia-se, empanzina-se de certezas.

De facto, não se pode ter tudo: e essa esquerda prefere, decididamente, a barriga cheia e a cabeça vazia. Do lado de fora, no mundo, milhares de milhões trabalham e sofrem, ignorando-a quando não a desprezam. Para gáudio dos poderes do capitalismo.

Sabemos todos que o capitalismo não é eterno; sobretudo quando as suas incapacidades o transformam em cataclismo. No seu âmago, o capitalismo tem a perfeita noção das suas dificuldades e joga decididamente, tudo na sua sobrevivência, como em medidas para que a multidão se distraia dessa realidade.

Compete à esquerda criar e acelerar as condições para que o capitalismo seja visto como dejecto e a multidão decida, sobre ele, puxar o autoclismo da História.

Entre o acima referido enxame de questões que necessitam de ser colocadas e discutidas para o reforço da ligação da esquerda com os movimentos sociais, seleccionaram-se dez questões:

O pensamento único

A grande concentração da produção de informação e de conteúdos pretende gerar uma forma única de pensamento, alicerçado na inelutabilidade do capitalismo, sobretudo na sua versão neoliberal, de endeusamento da concorrência, do espírito empresarial e do mercado.

Pretende-se um mundo configurado e feliz na adopção daquele pensamento único, ocultando-se a contestação ou, quando tal não é possível qualificando-a de terrorismo. A grande aposta dos media são “fait-divers”, as desgraças ocasionais ou a vida cor-de-rosa da “beautiful people” e debates políticos semelhantes à discussão das virtudes da água benta sobre a água comum.

A escola, mormente o ensino universitário, pretende colocar no mercado “produtos” reprodutores desse pensamento único e onde prepondera a ausência de espírito criativo e crítico.

O principal veículo de liberdade informativa e de pensamento está na internet que, por isso, está a ser objecto de formas engenhosas de controlo, por parte de uma aliança entre os governos e as indústrias de conteúdos.

O modelo social europeu

Durante umas décadas o capitalismo deu um tratamento de excepção aos povos ocidentais, violentando muito mais e matando alegremente os restantes. Com a globalização e as deslocalizações, está em curso uma homogeneização da exclusão e da exploração a nível global, pelo que o modelo social europeu faz parte da História.

Propor um modelo especial privilegiado para os europeus, não extensível aos outros povos é a aceitação das divisões e da hierarquia promovida pelo capitalismo. É um comportamento aristocrático, neocolonial, racista.

Porque não um projecto de modelo social mundial, baseado na extinção do capitalismo?

O fim das nações

O que existe realmente são os povos e as suas culturas, enquadrados tardiamente em nações para que as burguesias pudessem apossar-se do trabalho de um vasto conjunto de gente, privatizando-os, separando-os dos do outro lado da fronteira.

Com as nações vieram os nacionalismos para irmanarem trabalhadores e capitalistas sob uma mesma bandeira, mas nunca iguais quer no capítulo dos sacrifícios quer no dos rendimentos.

As esquerdas tradicionais sorveram lentamente o veneno patrioteiro, reproduzem-no e praticam um internacionalismo folclórico e hipócrita quando ostentam um “proletários de todos os países, uni-vos”. E vão repetindo as práticas nacionais de contestação, evitando a conjugação e articulação das lutas nos diversos países, entreabrindo portas por onde se esgueira o chauvinismo e o racismo.

O carácter global da produção de bens e serviços, segmentada em termos de processo técnico e geograficamente une, como nunca antes na História, todos os trabalhadores do planeta, tornando despiciendas as razões iniciais da constituição das nações. Estas, no entanto vão subsistindo como elementos essenciais de fragmentação e estratificação dos trabalhadores, como instrumentos de controlo da multidão; mas, enquadradas por instituições internacionais, onde se tomas as decisões estruturantes do capitalismo global.

União Europeia

A UE constitui uma experiência pioneira da globalização, criando uma hierarquia de povos tendo no vértice instituições irrelevantes (parlamento europeu) ou profundamente anti-democráticas (as restantes), sob o alto comando dos capitais financeiros alemães e franceses (zona euro) e ingleses.

À medida que se vão desenvolvendo áreas comuns mais aberrante se torna a configuração política e a gestão económica da UE, baseada nos sacrossantos princípios da bondade do funcionamento do mercado e da concorrência. Não admira que nunca tenha havido uma verdadeira solidariedade geradora de redução das desigualdades regionais ou sociais; que a crise financeira se tenha articulado com o baixo crescimento impulsionado pelas deslocalizações, criando dificuldades novas nas periferias sul e leste; que seja incipiente o sentimento europeu por parte dos povos integrados na UE.

A saída do euro ou da UE, sendo opções cujos impactos reais não estão estudados nem discutidos, sobretudo à esquerda. Na entrada na UE, a esquerda pouco se fez ouvir, apesar dos princípios anti-democráticos da decisão e vigentes nas instituições integrantes, também tocada pelo espírito desenvolvimentista, “moderno”, adoçado pela promessa dos milhões de ajudas, rapidamente malbaratadas, por um patronato culturalmente indigente e um mandarinato tão cúpido quanto impune.

É estranho agora, num momento particularmente difícil, de rápido empobrecimento colectivo, que a esquerda não coloque aquelas questões na agenda.

O Estado

Nada se faz ou acontece sem a presença voraz e autoritária do Estado e dos seus corruptos e ineptos donos. Como capitalista colectivo sempre foi o elemento viabilizador da rentabilidade dos grandes negócios do capitalismo privado, de hierarquização dos capitalistas.

Mesmo num contexto de crise em que o Estado se assume como um carrasco da multidão, há uma esquerda que piamente defende um virtuoso Estado de bons, expulsos os maus, como nas histórias infantis.

Essa pretensa separação entre o Estado e os capitalistas, essa esperança face ao comportamento do Estado gera na multidão uma tolerância que desarma as lutas contra o capitalismo e de que este é o único beneficiado.

Entretanto o Estado cresce, rapina, torna-se avaro no cumprimento das suas obrigações sociais estatuídas solenemente nas leis, sempre em nome de princípios e prioridades onde os cidadãos não constam

Uma democracia para consumidores

Os cidadãos, no modelo vigente, dito democrático, não escolhem alternativas políticas de organização social; escolhem pacotes de vigaristas que, como coisa mais óbvia e trivial, lhes pedem um cheque em branco, em troca de promessas que nunca cumprem. Quando se escolhe um desses pacotes, durante anos a única intervenção que aos cidadãos é concedida é a de assistir aos falsificados torneios televisivos, entre dois actos de consumo.

Há uma esquerda que aceita passivamente que se confunda este rodopio de carrossel com democracia, assumindo também a postura messiânica de ungidos pelo voto, sabendo-se de antemão, que os parlamentos são câmaras de ressonância, alimentadas pelos Estados com mordomias e recursos financeiros. Nessas instituições pastam mandarins de vários partidos, sóbrios e apartidários (?) zeladores das leis e “corruptus vulgaris” para todos os gostos e tonalidades, em constante rotação de cargos.

Um autoritarismo crescente

À vigência de uma democracia de plástico corresponde um crescente autoritarismo da parte do Estado e nos locais de trabalho; um tempo de chumbo que prenuncia um novo fascismo. O empobrecimento, o desemprego em massa, repressão laboral sob a forma de lei, o encarecimento do acesso à educação, à saúde e há habitação, a ausência de segurança na doença e na velhice, a juntar ao endividamento para toda a vida acentuam a precariedade da vida, muito para além da inerente à biologia.

As resistências activas ou passivas e as possibilidades tecnológicas de controlo social (bases de dados, videovigilâncias, a utilização de cartões diversos em actos triviais) evidenciam a grande desconfiança e insegurança por parte dos poderes.

Por outro lado, o crescimento económico anémico que caracteriza o Ocidente há muito tempo, contribui para a acentuação das desigualdades e o desenvolvimento de um vasto e diversificado sistema securitário físico, legal e incorporado psicologicamente, a que se chama sociedade de controlo.

Os excedentes de vidas humanas

As possibilidades do capitalismo em gerar meios em quantidade e qualidade evidenciam-se parcas, apesar dos imensos recursos físicos e tecnológicos existentes. Assim, o volume actual de pessoas e o aumento da sua longevidade, torna a população humana exagerada para a satisfação da infinita cobiça do capital.

Há toda uma lógica de redução da população do planeta, já definida em planos nacionais e na prospectiva demográfica, sendo instrumentos para o efeito: a redução da natalidade, a privatização, a rarefacção e o encarecimento dos cuidados de saúde, o aumento das jornadas de trabalho e da idade de saída da vida laboral, a “neutralização” como seres humanos de aposentados, desempregados e pobres, objecto de todas as discriminações e abandonos, o desinteresse por enormes massas urbanas constituídas por gente expelida dos campos, ou por populações atingidas por doenças como a sida ou a malária

Está em curso um redimensionamento da população mundial que, embora de aplicação a longo prazo, tem vertentes que constituem um verdadeiro genocídio, lento e não mediatizado, que tem o seu ponto mais visível na Palestina e em Gaza, mais particularmente.

Militarismo

Onde a UE se vem mostrando activa é no capítulo da militarização, da interpenetração das funções militares com as áreas da segurança, todas sob o chapéu largo, mas roto, da ameaça terrorista, arquitectada no Pentágono e materializada num produto fora de prazo, a NATO, entre outras instâncias.

À medida que a supremacia ocidental sobre os recursos mundiais é contestada pela pujança económica dos chamados BRIC, a superioridade militar da NATO, onde avulta o domínio dos EUA, torna-se cada vez mais, o instrumento essencial da procura do controlo dos recursos energéticos para a manutenção daquela supremacia.

Essa militarização tem subjacente uma elevada concentração da indústria de armamento, uma subalternização do aparelho policial e de segurança interno, um crescimento dos gastos militares e a banalização da utilização de armas de destruição massiva, mormente nucleares. Tudo como forma de controlo dos abastecimentos energéticos e dos corredores de transporte das potências ditas emergentes.

O cerco da China e da Rússia, as ameaças veladas ao Brasil já lançaram ou poderão lançar novas guerras e conflitos nas suas proximidades.

A preponderância de uma lógica nacionalista e provinciana torna a esquerda institucional alheia à ligação entre a crise económica, a ofensiva anti-laboral e a militarização das sociedades.

A deriva ambiental

Um sistema económico e social cujos protagonistas são capazes de, paulatinamente, irem destruindo o habitat humano é irracional e, esses protagonistas são estúpidos.

Se existe um campo vasto de aplicação de energias renováveis para a produção de electricidade e aquecimento, a mesma é retardada pela intervenção dos Estados a favor das grandes empresas eléctricas e dos bancos, impedindo a democratização da sua utilização.

A segmentação da produção mundial e o menosprezo pela utilização dos recursos locais promove enormes gastos energéticos no transporte, sobretudo de combustíveis fósseis. De modo idêntico, o primado dos interesses capitalistas conduz a formas de mobilidade urbana altamente poluentes, consumidoras de energia, promotoras de um urbanismo caótico e que culmina na redução da fluidez dessa mesma mobilidade.

Finalmente, a utilização da água, a sua contaminação, o esgotamento dos solos, a desflorestação, a desertificação, o degelo, revelam a incapacidade de um sistema social baseado no lucro de tornar, a longo prazo, sustentável a vida no planeta.




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Não há verdadeiras soluções dentro do capitalismo. E toda a análise dos problemas actuais, todas as formas de actuação da multidão e das organizações políticas e sociais devem ter, como pano de fundo, a existência do capitalismo e como instrumento de actuação a ligação dos vários problemas entre si e uma perspectiva anti-capitalista.


20/Julho/2010


Este e outros textos em:
http://www.scribd.com/group/16730-esquerda-desalinhada
http://www.slideshare.net/durgarrai
www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt
http://esquerda2011.blogspot.com/2010/07/pensar-esquerda-sem-vacas-sagradas.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A UJC e o pioneirismo na formulação de políticas de esquerda para a juventude no Brasil

A UJC e o Pioneirismo na formulação de políticas de esquerda para a juventude no Brasil
Da fundação a primeira reestruturação







O Movimento Comunista Internacional (MCI) sempre foi permeado por divisões e disputas, sendo a homogeneidade nunca uma constante. Durante o século XX, o MCI passou por um forte movimento de ruptura e superação , refletindo um quadro de tensão ainda maior.3 Prova disso é que os anos pós-Revolução Russa foram de intensa movimentação no cenário comunista internacional. As divergências ainda permaneciam em parte, muitas das do período pré-revolução, mas agora a hegemonia, fortalecida pela prática, ou seja, pela vitória dos bolcheviques, agora era outra.
A II Internacional Comunista foi constituída com princípios federalistas. Ou seja, era formado por diversas organizações implementadas em países diversos. O que não significava uma total autonomia de suas partes. A Social Democracia Alemã era uma espécie de centro nervoso, um comando “legítimo” do movimento socialista, por diversos fatores que não cabem nesse breve texto descrever. Contrariamente ao movimento que inspiraria a III Internacional.4
Essa tônica seria hegemônica dentro do MCI até o fim do século XX, tendo como característica a forte centralização nos planos de formulação teórica, análises e táticas de intervenções no movimento político.
Assim III Internacional ou Komintern (Internacional Comunista), organizada como a Internacional necessária para a época das revoluções, foram inspiradas não mais numa espécie de federalismo, como a II Internacional, mas sim sob da lógica de um só partido internacional. Tal partido surgia como um formulador de linhas gerais, onde uma série de outros partidos criados no calor da Revolução Russa ou através de cisões no interior das antigas Social Democracias era filiados e buscavam orientações para suas ações políticas.
Se a II Internacional, tinha tido êxitos no fortalecimentos dos Partidos dos operários, no crescimento de sua representação política, as mesmas tinham se acomodado a ordem, e precisavam agora de um novo tipo de organização para apresentar a superação do capitalismo na sua fase nova, onde as antigas táticas da Social Democracia se mostravam como meras reformas ao sistema.
No Brasil em 1922 foi criado o Partido Comunista (Seção Brasileira da Internacional Comunista) de sigla PCB sob forte inspiração no Partido Bolchevique, vitorioso na Revolução Russa, reflexo também de um novo movimento operário brasileiro que não mais se sentia contemplado nas teses do movimento anarquista, carecia de uma organização que unificasse as novas demandas, mobilizações e lutas e que formulasse um mais bem estruturado programa de intervenção política.
O PCB, que desde sua fundação buscava se enquadrar nas linhas orientadoras da III Internacional procura desenvolver as diretrizes internacionais no Brasil.
Uma importante orientação feita pelo Komintern, dizia respeito à criação de juventudes comunistas em todo o mundo. Esta tarefa já percorria os partidos comunistas desde 1920, ano do II Congresso do Komintern, que na ocasião também organizou o I Congresso da Internacional da Juventude Comunista.
O PCB procurou cumprir a orientação de organizar sua juventude comunista. Descrevendo o II Congresso do PCB, Moisés Vinhas aponta a importância atribuída já em 1925 para a tentativa de organização de uma juventude comunista brasileira: “(...) Do temário constam relatórios sobre as atividades (...) e organização da Juventude Comunista, que atraíra poucos membros no Rio de Janeiro desde sua criação em Janeiro de 1924, deveria receber atenção mais seria do coletivo”.5
Desde janeiro de 1924, quando em uma reunião do Comitê Central (CC) foi aprovada a criação da JC6, até a sua fundação em agosto de 1927, o PCB possuiu enormes dificuldades para por em prática tal resolução do Komintern.
Foi encarregado de organizar a juventude o jovem Leôncio Basbaum, convidado a participar de uma reunião do CC do PCB por Astrojildo Pereira. Como militante já desenvolvia trabalhos com jovens comunistas em Recife e Salvador pelo Partido. O próprio Basbaum explica que “decidiram que eu seria, a partir de então, o encarregado do setor juvenil do Partido, com o objetivo de criar uma organização juvenil de caráter nacional (...)”.7
Ainda em 1926, de maneira bastante embrionária, a Juventude Comunista começa a intervir no seio da sociedade, fazendo um trabalho de recrutamento entre jovens operários e organizando os primeiros Diretórios Acadêmicos do país. No Rio de Janeiro, foram criados diretórios na Faculdade Nacional de Direito, Engenharia e Medicina.
Além da militância, Leôncio Basbaum também trabalhava no jornal “A Nação” onde passou a escrever uma série de artigos sobre a juventude operária e sobre a necessidade de se constituir uma organização especifica da juventude. Conseguiu, através deste jornal, publicar fichas de cadastros para que os jovens preenchessem e enviassem pedindo ingresso na Juventude Comunista Brasileira (JC).
Em fins de 1926 já haviam centenas de inscritos de vários Estados (Rio de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Pernambuco, São Paulo e Distrito Federal – antigo Estado da Guanabara). Apesar da JC esboçar um fortalecimento numérico, algo ainda faltava para por em marcha o processo de organização em nível nacional.
Nas atividades do 1º de Maio de 1927, data mais que apropriada, a participação da nova JC ocorre com grande destaque. Mostraram-se as demandas de uma juventude que logo ao romper a infância, era posta em condições de trabalho sofríveis, sem possibilidades de prosseguir com os estudos, além de não possuir uma organização que a representasse. Havia, uma demanda organizativa, emulativa, mobilizadora no seio da juventude trabalhadora. Estimulada e estimulando essa demanda a JC tornou-se pioneira em organização de juventude com características nitidamente de esquerda. Ocupando esse espaço no cenário político brasileiro, o espaço da juventude organizada não enquanto classe, já que não era esse o cenário, mas enquanto instrumento de uma classe, agrupando jovens trabalhadores e demais jovens, desde que comprometidos com a classe trabalhadora e sua luta por emancipação.


Juventude Comunista Brasileira: surgimento e primeiros conflitos

O dia 1º de Agosto foi escolhido como data para o Ato de Fundação da Juventude Comunista, pois congregava na mesma data o Dia Internacional da Juventude e o Dia Internacional de Luta Contra a Guerra, bandeira, esta segunda, defendida pelas juventudes comunistas do mundo todo.
Como cerca de 80% a 90% da composição da JC eram de jovens trabalhadores, inclusive a maior parte da direção provisória que seria indicada, existiu uma preocupação em associar a JC com o segmento juvenil que estava no mercado de trabalho. Assim, o local escolhido para o evento era uma referência para os trabalhadores da época, um importante sindicato: a União dos Trabalhadores Gráficos (UGT) com sede no centro do Rio de Janeiro.
Comentando a solenidade, Leôncio Basbaum descreve “(...) uma bela festa com discursos, nos quais o que mais se destacou foi o de um jovem metalúrgico, de uns 17 anos, Jaime Ferreira, que não sabia como acabar o seu discurso. Ao fim de quase meia hora, tive de puxá-lo pela manga para que sentasse (...)”.8
Com a fundação da JC foi indicada uma direção nacional provisória, onde Leôncio Basbaum foi eleito Secretário Geral. Basbaum ocupou o cargo até o ano de 1929, quando completou 21 e, seguindo as decisões estatutárias de então da Juventude Comunista, deveria ingressar no PCB.
A primeira direção nacional, de caráter provisório, denominado de Comitê Central, era um reflexo das principais características das juventudes comunistas, suas limitações e seu grau de relação com o PCB. Foram indicados como membros da direção os jovens trabalhadores, na maioria operária: Jaime Ferreira, Elisio, Altamiro, Brasilino, Pedro Magalhães; e os estudantes Artur, Manuel e Leôncio Basbaum.
Com o intuito de potencializar as intervenções da JC, foi criado o jornal O Jovem Proletário. O jornal tornou-se o porta-voz semanal da Juventude Comunista, que teve seu nome alterado para Juventude Comunista Brasileira (JCB)9. O grande mote do jornal eram as denúncias, sendo elas de caráter geral – como a visita de navios de guerra dos EUA – , ou referentes ao cotidiano dos jovens – situação dos jovens trabalhadores e a redução da jornada de trabalho, bandeira defendida pela JCB.
Nós primeiros números eram apresentada a Juventude comunistas de referência a juventude comunista, como o “patrono” das JCs Karl Liebknecht, textos de Lênin a UJC Soviética (Komsomol) e também, além das denuncias, a dura realidade vivida pela juventude trabalhadora brasileira e mundial.
No que diz respeito à relação da juventude com o Partido, fica clara a preocupação em evitar confrontos, causando certa confusão quanto às delimitações de atuação da organização. De acordo com Basbaum, “embora por vezes ultrapassemos nosso campo de ação, procurando tomar atitudes políticas, na verdade tínhamos de seguir a linha traçada pelo próprio Partido. Nossa ação se limitava a recrutar jovens nas fabricas, nas empresas ou no comercio, e mesmo em escolas superiores (...)”.10
Dentre as dificuldades iniciais ainda havia o fato de possuir um efetivo de jovens com diferentes graus de estudos, desde analfabetos até estudantes de nível superior. Traçar uma política que garantisse a unidade de um grupo tão heterogêneo e, principalmente, representasse todos, era tarefa bastante árdua.
Vislumbrando sanar tais carências, a JCB lançou mão de diversos tipos de atividades recreativas e culturais, organizando em 1928 o Centro de Jovens Proletários.Tratava-se de um centro cultural e recreativo agregava os jovens trabalhadores, fornecendo ao mesmo tempo lazer e conhecimento.
O aumento do prestigio da JCB entre os jovens trabalhadores pode ser notabilizado pelas investidas de maiores êxitos, como as reivindicações por setoriais juvenis para atenderem demandas especificas, dentro dos próprios sindicatos.11 Esse fortalecimento da Juventude Comunista, assim como o do próprio PCB não passariam gratuitamente para as oligarquias que dirigiam o país. Que viam com preocupações os movimentos sociais e a organização da classe trabalhadora no Brasil
Nas vésperas de seu primeiro aniversário, a JCB sofreu um grande impacto. Assim como o PCB foi posta na clandestinidade pela chamada Lei Celerada.12
Quanto às relações internacionais, a JCB solicitou e teve sua inscrição aceita na Internacional da Juventude Comunista, de onde recebeu o convite para participar do V Congresso da Internacional Comunista da Juventude, além de obter uma bolsa de estudo na Escola Leninista, com direito a enviar um filiado. Mesmo na clandestinidade a JCB buscou finanças para a viagem até Moscou, sendo representada por seu Secretário Geral Leôncio Basbaum.
No interior do PCB, ocorria desde fins de 1927 um intenso debate acerca da aproximação com elementos da Coluna Prestes e o próprio Luis Carlos Prestes. Tal debate dividiu o Comitê Central do PCB, onde alguns militantes acusavam Prestes e seus seguidores de possuírem tendências pequeno-burguesas. Por fim, o Comitê Central do PCB encaminha a decisão do então Secretário Geral Astrojildo Pereira de entrar em contato com Prestes, estava exilado na Bolívia.13
A mesma divergência teve repercussão devastadora na Juventude, causando a primeira grande cisão na organização. Posterior a esse “racha” um momento bastante peculiar foi inaugurado nos organismos do Partido, inclusive na juventude. É o que se convencionou chamar de obrerismo, espécie de proletarização objetiva e política dos militantes do PCB e da JCB, decorrente dos novos ditames do MCI.


A Juventude e o obrerismo

O movimento comunista brasileiro começa a amadurecer e, portanto, a esboçar uma formulação original sobre a realidade brasileira. Este momento de criatividade e originalidade dos comunistas brasileiros teria seu ponto culminante no III Congresso do PCB e no I Congresso da JCB que ocorreriam, respectivamente, em 28, 29, 30 e 31 de Dezembro de 1928 e 01, 02, 03 e 04 de Janeiro, em Niterói. As formulações políticas dos citados congressos logo sofreriam intervenções pela nova doutrina política da Internacional Comunista – o Komintern.
No interior do PCB e, conseqüentemente, no interior da Juventude Comunista, essa conjuntura fez surgir a discussão sobre o caráter da revolução brasileira, os mecanismos de intervenção do PCB e da Juventude no conjunto dos movimentos sociais e do próprio Estado.
Trata-se de um momento de grandes adversidades conjunturais e políticas, de grande repressão por parte do governo, onde vários comícios chegaram a ser dispersos com tiros pela policia. Entretanto, o PCB e a JCB passaram por um fortalecimento político e numérico, mesmo diante da confusão gerada pelas disputas no MCI e pelas novas táticas deste, ganhando espaço e ampliando sua intervenção na sociedade. 14
No plano internacional, o MCI se definia numa forte luta interna que percorreu toda a década de 1920, culminando na vitória do segmento de Joseph Stálin. Configurou-se a política chamada Classe contra Classe, que nada mais era que uma confrontação direta, onde a forte manifestação de um obrerismo (da palavra obra, labor, trabalho) influenciava todos os Partidos filiados ao Komintern.
O I Congresso da JC aponta a necessidade de intensificar a atuação dos jovens comunistas no interior dos sindicatos e desenvolver mais atividades nos setores recreativos e culturais, dando uma maior atenção aos Centros de Jovens Proletários. Leôncio Basbaum demonstra a importância das atividades empreendidas nos centros para a JC: “ele já nos havia trazido excelentes rapazes e moças para a JC e também havíamos decidido esforçar-nos junto aos sindicatos para a criação de departamentos juvenis, a fim de atrair para eles os operários mais jovens (...)”.15
Tanto o PCB quanto a JC conseqüentemente sofrem a crescente influência do obrerismo, o que engessou as organizações, levando-as para um estreito isolamento político. E é nesse clima que ambas entram na década de 1930.
Após sofrer duras criticas por parte do Komintern contra o Bloco Operário Camponês (BOC) – que em 1928 elegeu dois vereadores para o Distrito Federal – , o PCB desfaz o bloco e começa a afastar do Comitê Central os intelectuais, adequando-se às mudanças de linha do obrerismo.
Os primeiros anos da década de 1930, já sob o governo de Getúlio Vargas, os movimentos sociais foram marcados pela inibição e tentativa de institucionalização dos mesmos. A busca de Vargas na construção de um Estado forte e soberano, sem oposições em movimentos reivindicatórios, foi contribuída e facilitada pela adoção por parte do PCB da política obreira, que a afastou o próprio Partido dos movimentos sociais e do conjunto da classe trabalhadora.16


Do sectarismo à amplitude: Frente Popular/ Frente Única Contra o Fascismo

Com o crescimento do movimento fascista na Europa, o Komintern se vê obrigado a recuar de sua política estreita e sem resultados. Nos primeiros anos da década de 1930, começa a rever a política de confrontamento direto, buscando aliança com os setores democráticos contra a ameaça fascista. Em 1935 é levado à frente do Komintern o herói na luta contra o fascismo Dimitrov, que efetua uma verdadeira guinada na linha política do MCI.
Em relatório apresentado por Dimitrov no VII Congresso do Komintern, buscou pela construção das frentes únicas contra o progresso do fascismo, apresentando suas características e o seu avanço. O documento destacou o tema das frentes anti-fascistas na juventude, onde procurou fazer um balanço das atividades das Juventudes Comunistas:

"Nossas Juventudes Comunistas continuam sendo, numa serie de países capitalistas, organizações sectárias, desligadas das massas. Sua debilidade principal reside em que se esforçam ainda em copiar as formas e métodos de trabalho dos Partidos Comunistas, e esquecem que as juventudes comunistas não são o Partido Comunista da Juventude. Não percebem que são uma organização com tarefas especiais. Seus métodos e formas de trabalho, de educação, de luta, hão de adptar-se ao nível concreto e as exigências da juventude”.17

No Brasil, sentia-se a necessidade de integrar a JC a um movimento mais amplo diante da fascistização do Estado com Getulio Vargas e da sociedade com a criação da Ação Integralista. Era a uma oportunidade de sair do isolamento a qual se encontrava e de fato começar a intervir novamente na sociedade. Foi neste espírito que a organização participou ativamente da Conferencia Nacional de Estudantes Antifascista.
Nesta ocasião, ocorreram grandes mobilizações promovidas pela Juventude Comunista e, paralelamente, uma série de conflitos físicos entre os comunistas e os integralistas18. Os mais famosos confrontos foram à chamada Batalha da Sé, em São Paulo, com diversos feridos e quatro mortos, sendo um militante da Juventude Comunista, e no Rio de Janeiro houve fortes confrontos na Cinelândia, centro cultural da cidade.19 Tornava-se cada vez maior a necessidade de intensificação da luta contra a fascistização do Estado e da sociedade. A conjuntura posta obrigava a Juventude Comunista a diversificar suas formas de resistência e lutas.
A criação do jornal "Juventude", em 1935, é um reflexo dessa política de resistência ao avanço da direita no país. Esse jornal, que sucedera o Jovem Proletário, ampliando o dialogo da juventude com as novas demandas, conclamava a unidade incondicional dos segmentos anti-fascistas. Em um documento do CC do PCB, de Maio de 1935, apontava a necessidade de se organizar, além dos espaços da JC, os "mais amplos e variados organismos de massas, culturais, recreativos e esportivos e etc nas cidades e no campo”.20
A resolução apontava para que a JC formasse comitês juvenis da Aliança Nacional Libertadora (ANL), e indicava, também, como prioridade organizar o Congresso da Juventude Proletária, Estudantil e Popular, para que tal deliberasse por sua adesão a ANL, fazendo um trabalho paralelo entre os estudantes, entre os jovens operários das fábricas, sindicatos e etc. A idéia era “formar e ampliar a JC dentro de amplos organismos de massa juvenis".21
Destaca-se a participação dos jovens comunistas nos comícios em todo o país, sendo muitos presos. Em atos simbólicos, eram feitas ironias contra os integralistas, onde enforcavam galinhas verdes em alusão as fardas verdes usadas pelo movimento fascista.
A Juventude Comunista ampliava sua participação nos espaços da ANL, assim como seu raio de dialogo coma juventude, começando inclusive a mudar seu perfil, agora com um número crescente de estudantes, em Março, foi aclamado no Teatro João Caetano por proposta de um dirigente da JC, o nome de Prestes para presidente de honra da ANL. Que agora chamava o conjunto dos trabalhadores a derrubar o governo de Vargas e proclamava todo poder a ANL. Em resposta a crescente radicalidade da ANL, o governo de Vargas colocou a organização na ilegalidade, desencadeando uma série de atos arbitrários por parte do Estado, com fechamento de sedes, prisões e espancamentos. Se radicalizava a realidade brasileira, e num ambiente de confronto, ocorre o levante comunista de novembro de 1935. O fracassado Levante Comunista, 1935 fortaleceu ainda mais o argumento do Estado em repreender os comunistas, o momento seguinte foi fortemente marcado pelo desmantelamento do Partido e das organizações a ele ligado, inclusive a Juventude Comunista.22
A partir desse momento que perdurou até meados de 1940, a JC inaugurou numa fase de sobressaltos e incertezas, pois manteve suas atividades e seu funcionamento de forma ilegal e clandestina.


Considerações Finais

Desde sua fundação, passando por inúmeras reorganizações (a União da Juventude Comunista foi reativada no segundo semestre de 2006), a JC construiu uma identidade de aproximação com os jovens brasileiros que contribuiu para a consolidação de uma cultura reivindicatória, onde as demandas e necessidades postas eram transformadas em bandeiras e lutas assim como participante ativa em diversos movimentos como a própria criação da União Nacional dos Estudantes (UNE).
Inegavelmente a história da Juventude Comunista assim como o de seu referencial ideológico e político, PCB, confunde-se com a história do Brasil, denotando a vital importância de um estudo mais aprofundado do tema e seu conhecimento pela sociedade.


Heitor Cesar R. de Oliveira e Maria Fernanda M. Scelza (Historiadores e Comunistas)



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Tal texto se trata de resultados ainda preliminares de uma pesquisa maior que envolve toda a história da UJC
Trata-se da disputa no interior da Social Democracia internacional (II Internacional, a Internacional Socialista) que se fortaleceria no momento de crise política causado pela Grande Guerra Mundial
3 A descrição do momento citado e suas limitações poderão ser compreendidas em LÊNIN, V. I. O Estado e a Revolução. SP: HUCITEC, pp. 15.
4 Ver Programa e Estatutos da Internacional Comunista. Lisboa: Edições Maria da Fonte, 1975.
5 VINHAS, Moises . O Partidão: a luta por um partido de Massas. SP: HUCITEC, pp. 34.
6 PEREIRA, Astojildo. Ensaios históricos e políticos. SP: Alfa-Ômega, 1979. 58.
7 BASBAUM, Leôncio. Uma vida em seis tempos: memórias. SP: Alfa-Ômega, 1978. p. 45
8 Idem ao 7. pp. 45
9 Ao longo dos anos, a juventude comunista do Brasil recebeu inúmeros nomes, como Juventude Comunista (JC), Juventude Comunista Brasileira (JCB), Federação da Juventude Comunista Brasileira (FJCB) e União da Juventude Comunista (UJC), nome que permanece até os dias de hoje.
10 Idem ao 5. pp. 47
11 BASBAUM, Leôncio. A Historia Sincera da Republica. vol. II. pp. 215.
12 Lei posta em vigor no ano de 1927. Tinha como meta a censura da imprensa e a restrição das reuniões. Objetivava atingir, sobretudo, o Movimento Tenentistas e o Bloco Operário Camponês (BOC).
13 LIMA, Heitor Ferreira. Caminhos Percorridos. SP: Brasiliense, 1982. pp. 62.
14 ROEDEL, Hiran e outros. PCB 80 anos. RJ: Fundação Dinarco Reis, 2002. pp. 122.
15 Idem ao 7. pp. 64
16 Idem ao 5. 68.
17 DIMITROV. A Unidade Operária Contra o Fascismo. MG: Aldeia Global Livraria, 1978. pp. 59-60.
18 Movimento nacionalista de nítida caracterização fascista. Os integralistas possuíam como principal liderança o intelectual Plínio Salgado e foram aliados de Getúlio Vargas no início do governo, sendo perseguidos posteriormente.
19 Idem ao 14. pp. 123.
20 VIANNA, Marly (org.). Pão, terra e liberdade: memória do Movimento Comunista de 1935. RJ/ SP: Arquivo Nacional/ Universidade Federal de São Carlos, 1995. pp. 53.
21 Idem ao 20. pp. 53.
22 UJC. Resolução Politica do Congresso nacional de Reorganização – Histórico da UJC. RJ: Fundação Dinarco Reis, 2006. pp. 10.


Fundada em 1° de Agosto de 1927

quinta-feira, 8 de julho de 2010

20 Anos Sem João Saldanha


20 Anos Sem João Saldanha


Em 12 de julho de 1990, portanto, há vinte anos, falecia na UTI do Hospital Santo Eugênio, em Roma, vítima de insuficiência respiratória e embolia pulmonar, João Saldanha, camarada admirado por todo o coletivo partidário em virtude de sua dedicação à luta pelo socialismo e o comunismo em nosso país. Aos interesses populares e nacionais, para cuja realização o PCB sempre empregou o melhor de suas energias, pagando um alto preço desde março de 1922, Saldanha entregou sua inteligência, caráter e valentia, comprometendo gravemente sua saúde.
Em 1935, aos dezoito anos de idade, João e seu irmão Aristides aderiram ao programa da Aliança Nacional Libertadora, atraídos pelo movimento internacional de resistência ao nazi-fascismo e de combate aos planos belicistas do imperialismo alemão. Do antifascismo, Saldanha evoluiu ideologicamente até aderir ao marxismo-leninismo.
Em 1945, pouco após o estabelecimento de relações diplomáticas do Brasil com a União Soviética e a libertação de mais de cem militantes comunistas, Saldanha ingressou no Partido, passando a atuar num dos Comitês Populares Democráticos criados pelo Partido, organizações de massa incumbidas de organizar um vasto conjunto de atividades. Saldanha também ingressou no Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), organização intersindical que resultou da aliança de comunistas e getulistas. Aos 28 anos de idade, Saldanha era o mais jovem secretário político dos comitês distritais do PCB, no Distrito Federal. Em maio de 1947, a ilegalização do Partido representou um duríssimo golpe para o proletariado brasileiro, travando, pela violência, o movimento de elevação da sua consciência e da sua organização. Em abril de 1949, tendo sido ferido à bala pela polícia, durante uma atividade de protesto contra a fundação da OTAN e os preparativos da III Guerra Mundial, Saldanha tornou-se funcionário do Partido. Nesta condição, ele assumiu tarefas de grande envergadura e responsabilidade no Estado do Paraná e no Estado de São Paulo, tanto na luta contra a grilagem de terra, na organização de sindicatos no campo, quanto na aplicação da nova linha política para o trabalho sindical, nos anos de 1952-1953, e que culminou na greve histórica de março de 1953.
Numa situação política mais favorável, a partir de 1956, Saldanha projetou-se como grande personalidade do desporto nacional, conquistando a admiração popular. Em 1960, afastando-se do exercício direto das atividades esportivas, Saldanha assumiu importante tarefa na imprensa de massa do Partido. Não demorou a ingressar no jornalismo esportivo, assumindo um papel de liderança inegável. O Golpe de 1964 encontrou-o no jornal Última Hora, veículo odiado pela reação e o imperialismo. Vítima, como tantos outros, da ação de delatores, Saldanha foi demitido da Rádio Nacional. O exercício da atividade de comentarista de futebol, na condição de mais brilhante e influente do país, jamais o afastou do PCB. Justamente por representar um obstáculo aos objetivos demagógicos da ditadura militar, Saldanha foi demitido do cargo de treinador do escrete nacional, em março de 1970.
Nos períodos mais difíceis para o Partido, quando o regime fascista buscava exterminá-lo, Saldanha, valendo-se dos meios proporcionados por sua profissão, prestou valiosa contribuição nas tarefas de enlace entre a direção no país e o Comitê Central no exterior. A partir de 1978, cumpriu diversas tarefas de envergadura à frente do CEBRADE, com vistas ao apoio à luta de massas pelo derrubamento da ditadura militar. Num momento de eclosão da gravíssima crise ideológica e de organização, após o retorno dos membros do CC, Saldanha rechaçou as posições do eurocomunismo, aproximando-se de Luiz Carlos Prestes, mas não abdicando da luta pela unidade partidária. Em 1985, na sequência de uma série de tarefas de agitação pela conquista da legalidade do Partido, nos estertores do fascismo, e apesar da saúde precária, Saldanha aceitou a missão de representar o PCB na chapa de esquerda nas eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro. Concorrendo ao cargo de vice-prefeito, Saldanha contribuiu para a conquista de expressiva votação. Quando morreu em julho de 1990, Saldanha era membro do Comitê Central. Saldanha, coerente com a visão humanista do futebol, foi um extraordinário desportista, símbolo do mais puro amadorismo, e maior jornalista esportivo de nossa história.
A recordação deste grande brasileiro, patriota e revolucionário proletário, passados vinte anos de sua morte, deve servir-nos de exemplo de conduta partidária. A ação do Partido, objetivando a educação política da classe operária e das massas populares, inseparáveis da elevação de sua organização e mobilização, é uma ação coletiva. É no processo da luta de classes que o Partido cria raízes no povo, e, ao mesmo tempo, educa e tempera cada um dos seus membros. Saldanha, como honesto e dedicado militante partidário, sabia que a força do Partido resulta de uma justa linha política e do trabalho real, concreto, junto às massas trabalhadoras. A recordação da atividade de Saldanha, no seio do Partido, deve servir-nos de estudo e estímulo para o cumprimento dos objetivos do PCB, nos dias atuais, caracterizados por complexa e difícil correlação de forças, com tantas dificuldades a vencer na conquista da unidade e da mobilização das massas proletárias contra o jugo do capital.

Carlos Vilarinho
Julho de 2010.

Orania e a maré negra




Não fosse a Copa e Orania seria um rodapé duma página obscura. Com as vuvuzelas azucrinando o juízo e as patriotadas em alta, alguém desenterrou a história de um gueto racista que sobrevive no país que derrotou o apartheid.

No início de 1991, pouco depois do fim do regime de segregação racial que vigorou na África do Sul por décadas, uma empresa adquiriu uma cidade abandonada, à beira do rio Oranje. Cerca de 50 famílias, todas brancas, se mudaram para lá e começaram a construir um “paraíso africâner”, desafiando o processo de integração pelo qual lutaram o CNA e Nelson Mandela.

O que pretendem os “puristas” ? Preservar nossos valores, cultura, língua, religião, responde Lyda Strydom, uma das líderes da comunidade. Queremos educar nossos filhos dentro da cultura africâner, completa Lyda.

Essa gente recusa o rótulo de segregacionismo, mas, ao rechaçar a convivência com outras etnias e culturas e separar-se, fisicamente, dos demais sul-africanos, só faz reafirmar o conteúdo racista de seu estilo de vida. Comportam-se como se o contato com os negros e suas múltiplas culturas representasse uma contaminação. Este ideal de pureza tem tristes e sangrentos antecedentes.

A muitos quilômetros de distância dali, no dia 17 de junho, uma maré negra serpenteava pelas ruas de Jerusalém. Mais de 100 mil haredim (judeus ultra-ortodoxos) manifestavam-se, indignados, pela .... manutenção da segregação ! Na colônia de Emanuel, enclave na Cisjordânia ocupada, pais de alunas de uma escola ultra-ortodoxa de ashquenazim (judeus originários, principalmente da Europa Oriental e Central) proibiram suas filhas de irem às aulas caso fossem aceitas estudantes sefaradim (judeus originários, principalmente, da Península Ibérica). A alegação ? As sefaradim não seriam suficientemente religiosas ... Conversa mole. Curioso é que os ashquenazim insistem que seu gesto não é racista. “Apenas” querem garantir uma segregação que não mude os critérios de pureza. O discurso, como se vê, tem claras coincidências com os oranianos (separação/pureza/medo).

Os haredim, que representam cerca de 10% dos judeus israelenses (devem chegar a 20% em 2020, segundo o demógrafo Arnon Sofer), não assistem televisão, nem filmes. São proibidos de ler jornais seculares e usar a internet, se não existir uma finalidade profissional. Recentemente, um jornal haredi modificou, digitalmente, fotografias do então recém-empossado gabinete israelense, substituindo as duas mulheres ministras por imagens masculinas. São uma força obscurantista, que, entretanto, se fortalece na medida em que, em Israel, estado e religião vivem em promiscuidade.

Intolerância tem muitos rostos, mas a máscara está sempre rasgada

Jacques Gruman

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

10 dias que continuam a abalar o mundo – (Breves Notas Sobre a Revolução de Outubro)




Quando em Outubro (Novembro)[1] de 1917 o grupo político-partidário dos Bolcheviques, liderados por Vladimir Ilitch Ulianov (Lênin), assumiam o poder político na Rússia Czarista não apenas quebrava a corrente internacional do capitalismo. Que até então gozava de uma expressiva hegemonia sobre o mundo como também surgia como a comprovação pratica das teses de Lênin, polêmicas no Movimento Comunista Internacional, e divergente de seu centro prestigioso, a II Internacional.

O grupamento político liderado por Lênin surgia como uma dissidência dentro da II Internacional. Com fortes criticas dirigida a cúpula do prestigiado corpo dirigente da Social Democracia Européia:

“A Falência da II Internacional exprimiu-se com especial clareza na traição escandalosa, pela maioria dos partidos social-democratas oficiais da Europa, de suas convicções e de suas resoluções (...) Mas essa falência, que marca a vitória total do oportunismo, alem da transformação dos partidos social-democratas em partidos operários nacional-liberais, não é senão o resultado de toda a época histórica da II Internacional, do final do Século XIX ao começo do Século XX. As condições objetivas dessa época de transição – que vai do encerramento das revoluções burguesas e nacionais na Europa Ocidental ao principio das revoluções socialistas – engendraram e alimentaram o oportunismo. Em certos países da Europa, pudemos observar, no decorrer desse período, uma cisão do movimento operário e socialista, cisão que se produziu, no seu conjunto, em função do repudio a linha oportunista (...) A crise gerada pela guerra ergueu o véu, varreu as convenções, rebentou o abscesso já de há muito maduro e mostrou o oportunismo no seu verdadeiro papel de aliado da burguesia”[2]

Assim, essa dissidência dirigia a II Internacional nucleada até então pelo forte Partido Social Democrata Alemão de Kautsky, severas criticas e apontavam a irreconciliável possibilidade de unidade. Tendo além de Lênin, líder do Partido Bolchevique Russo, vários outros membros de Partidos Socialistas e sociais democratas, inclusive no interior do próprio Partido Alemão, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que viriam a ser lideres da dissidência Alemã do Partido Social Democrata.[3]

Tais críticos da doutrina oficial do Marxismo na Europa ganharam força com o advento da Grande Guerra Mundial (1914-1918). Evento em que os Partidos Sociais democratas da Europa em consonância com as lideranças da II Internacional assumiram a defesa de seus países, inclusive vindo a participar da organização da Guerra ao lado das respectivas burguesias nacionais:

“A Guerra trouxe à classe dos capitalistas não apenas benefícios fabulosos e magníficas perspectivas de novas pilhagens (Turquia, China etc.), novas encomendas calculadas em bilhões, novos empréstimos com taxas de lucro majoradas, mas também trouxe à classe dos capitalistas vantagens políticas bem superiores, dividindo e corrompendo o proletariado. Kautsky ajuda nessa corrupção”[4]

A Grande Guerra foi um evento que marcou profundamente a Europa, não havia acontecido até então uma guerra de tamanha proporção em violências, onde novas armas mudavam para sempre a lógica das guerras. Porém, não se limitando ao cenário do capitalismo, a guerra marcaria a definitiva ruptura no interior do Movimento Comunista Internacional, fortalecendo a critica da falência da II Internacional, que ao cumprir o papel de unificador nacional durante a guerra, demonstraria suas limitações em conduzir o movimento do proletariado em momentos de revoluções e rupturas, diante das novas características do capitalismo, o imperialismo, sua fase superior.[5]

Em 25 de Outubro de 1917, (7 de Novembro em nosso calendário), os bolcheviques, deferiram o movimento final, que não era um momento isolado, mas o ato final de um processo que se iniciara na revolução de fevereiro, com vários momentos antecedendo, momentos como o desembarque de Lênin na estação Finlândia, as passeatas de junho e julho, intensos debates e disputas no interior dos sovietes, toda uma preparação nos círculos militares. Uma seqüência de momentos construídos até seu momento maior, a conquista do poder político, conduzindo as idéias gestadas no século XIX por Marx e Engels e todo um jovem movimento operário até seu objetivo programático.

Heitor Ferreira Lima, que entrara no Partido Comunista Brasileiro em 1923, um ano após sua fundação, assim descreve o impacto da Revolução dos Comunistas na velha Rússia:

“Na madrugada de 7 de novembro de 1917, acontecimento de maior relevância na história moderna ocorreu na velha Rússia dos Czares, marcando sempre sinal luminoso no seu decurso, dividindo o mundo em dois sistemas antagônicos: sistema capitalista e o sistema soviético, sendo este encabeçado pelo Conselho de Operários, Camponeses Soldados e Marinheiros. Sua instalação foi dificílima, árdua, demorada, tendo por finalidade a supressão do regime capitalista, objetivando o socialismo, para chegar no comunismo (...).”[6]

E na Rússia, marcada pelo atraso e por uma Guerra fracassada, onde os comunistas liderados por Lênin, Trotsky, Stalin e outros bolcheviques começaram a construir não apenas o regime socialista, como a reorganizar o movimento comunista, agora, através de uma nova internacional, a Internacional Comunista (Komintern). Com vários novos Partidos Comunistas nascendo no calor da Revolução que transformou a Rússia no primeiro país socialista do mundo, e em seguida, pela união de vários países e territórios, na fundação da União das Republicas Socialistas Soviética, URSS.

Lênin narra a importância da revolução de outubro e a construção do socialismo, assim como também as lições de outubro para o proletariado mundial na ocasião do 4º aniversário da Revolução de Outubro:

“Esta primeira vitória não é ainda a vitória definitiva, e a nossa revolução de outubro de Outubro alcançou-a com privações e dificuldades inauditas, com sofrimento sem precedentes,(...); Pela primeira vez depois de séculos e milênios, a promessa de responder à guerra entre escravistas com a revolução dos escravos contra toda espécie de escravista foi cumprida até o fim ... e é cumprida apesar de todas as dificuldades. Nós começamos esta obra. Quando precisamente, em que prazo os proletários de qual nação culminarão esta obra – é uma questão não essencial. O essencial é que se quebrou o gelo, que se abriu caminho, que se indicou a via.”[7]

A hegemonia internacional do capitalismo estava rompida, e logo após a revolução triunfante dos bolcheviques, a invasão do país por vários exércitos estrangeiros, inclusive inimigos na Guerra que findara há pouco mostrava que o mundo passaria a uma nova fase, marcada pela divisão entre capitalismo e socialismo, que com breve intervalo durante a II Guerra Mundial (1939-1945)[8] percorreria todo o século XX.

De tal forma se rompia também a corrente internacional do marxismo, agora o movimento de inspiração no marxismo ganharia alguns aspectos novos em relação ao ideário da II Internacional, com uma releitura da própria obra de Marx e Engels acrescida pela teoria e pratica do Partido Bolchevique, agora Partido Comunista. O Marxismo-Leninismo seria a nova mola propulsora do movimento comunista internacional , com a organização inclusive de uma nova Internacional, a III Internacional (Internacional Comunista ou Komintern) e reordenação dos comunistas, uns rompendo com a social democracia e construindo um Partido Comunista, outros com o acumulo de seus próprios movimentos operários ora anarquistas ora de natureza já comunista. Surgia uma nova denominação e uma nova cultura política no cenário internacional, os PCs, e um novo centro revolucionário, Moscou, capital da URSS.

O novo movimento agora sob o signo da III Internacional se diferenciava muito ideologicamente da II Internacional, se esta possuía ares de uma federação a III Internacional possui características de um só partido comunista internacional, um forte centro político de atribuições ampliadas, Moscou passaria a ser agora a irradiadora da Revolução Mundial:

“Atualmente já possuímos uma experiência internacional bastante considerável, experiência que demonstra, com absoluta clareza, que alguns aspectos fundamentais da nossa revolução não tem apenas significação local, particularmente nacional, russa, mas revestem-se, também, de significação internacional (...)”[9]

Os Partidos Comunistas se formavam, os antigos partidos sociais democratas sofriam rupturas internas com os novos adeptos do Marxismo-Leninismo. Ganhava força dentro do MCI o conjunto de proposta da Revolução como uma tomada violenta do Estado Burguês, sua demolição a partir da construção do novo regime.[10] Estava aberta à Era do Socialismo, a Era dos Sovietes que marcaria profundamente todo o decorrer do século XX, causando influências diretas em todo o mundo.

As elites do mundo capitalista, seus governantes, passariam a organizar toda a sua política internacional e até mesmo interna (os comunista eram vistos como inimigos internos) diante do medo de uma revolução mundial, onde a URSS lideraria a classe dos trabalhadores. E os primeiros sinais eram aterrorizantes, justificavam os maiores medos dos capitalistas, explodiam movimentos revolucionários na Europa ainda se recompondo da Grande Guerra. Os trabalhadores não mais falavam em conquista de direito, mas na possibilidade da conquista do poder político.

A Revolução dos Bolcheviques foi um dos eventos marcantes do século XX, seus resultados, como se sabe influenciaram o mundo inteiro. Assim como sua vitoria repercutiu também sua derrota, e assim como a vitoria na revolução não apenas partiu a corrente internacional do capitalismo, como também do movimento comunista, sua derrota em fins dos anos 1980 e inicio dos anos 1990 marcaram profundamente não somente o lado vitorioso, que declarava o fim da história (talvez a profecia com menor tempo de validade da história humana) e julgava-se dono incontestável do destino da humanidade, como também dentro do próprio movimento comunista.

Os comunistas de todo o mundo sentimos os impactos dessa derrota, partidos inteiros sucumbiram, outros mudaram de nome de políticas, negando e fugindo de sua própria história, e em outros, intensas batalhas se intensificaram no seu interior, potencializada pelo novo quadro internacional. Com a queda do bloco socialista do Leste Europeu muitos Partidos Comunistas passaram a depositar suas fichas na aliança com as camadas medias e a pequena burguesia, se colocando como força de esquerdas em varias frentes políticas de caráter meramente mudancistas, que buscavam mesclar uma política econômica vinculada ao grande capital com políticas sociais paliativas e assistencialistas. Não mais pondo em questão a natureza do regime capitalista, mas apenas como transformá-lo em algo mais humano, mais social.

De outro lado, os impactos da queda dos regimes socialistas do Leste Europeu condicionaram os movimentos e partidos comunistas revolucionários a fazerem um necessário balanço sobre suas atividades e políticas de intervenções no conjunto dos movimentos sociais. A reivindicação da história do movimento comunista enquadra seus acertos e erros, e assim, necessariamente a necessidade de apontar soluções novas.

O Movimento comunista hoje, se intensifica novamente, na America Latina em especial, vivenciamos um acirramento das lutas de classes, com um maior tensionamento na lutas, e em diversas formas de lutas.

Os comunistas se reorganizam, voltam a participar ativamente da vida política, e mesmo diante de algumas capitulações de determinados Partidos e Grupos comunistas, os comunistas que ainda declaram-se abertamente contra o Capitalismo e contra qualquer forma de opressão do homem contra o homem, se reapresentam ao conjunto dos trabalhadores como portadores de uma alternativa ao modelo capitalista, a alternativa COMUNISTA, a possibilidade de construir através de um processo revolucionário, uma nova sociedade, mais justa e igualitária, a sociedade comunista

FOMOS, SOMOS e SEREMOS COMUNISTAS.

Túlio Lopes, Heitor Cesar e Rodrigo Lima

(Comissão de Relações Internacionais da UJC – Brasil)


[1] Diferença no calendário utilizado na Rússia até o período da revolução.

[2] LENIN, Vladimir I. A Falência da II Internacional. São Paulo. Kairós, 1979. p.70

[3] ROCHA, Ronald. O Movimento Socialista no Limiar dos Impérios Financeiros (crônica da Segunda Internacional).Belo Horizonte. Editora O Lutador, 2006. p.156

[4] LENIN, Vladimir I. A Falência da II Internacional. São Paulo. Kairós, 1979. p.47.

[5] ROCHA, Ronald. O Movimento Socialista no Limiar dos Impérios Financeiros (crônica da Segunda Internacional).Belo Horizonte. Editora O Lutador, 2006. p.158

[6] LIMA, Ferreira Heitor. A Revolução Russa e a Fundação do PCB In: REVISTA INTERNACIONAL : Problemas da Paz e do Socialismo. Ano VI, nº 4 Outubro-Novembro-Dezembro de 1987. p. 59.

[7] Trecho do Artigo de LENIN, Vladimir I. “Para o quarto aniversário da Revolução de Outubro” publicado em 18 de Outubro de 1921, no Nº 234 do Pravda: in LENIN, Vladimir I. Obras Escolhidas V. III. São Paulo. ALFA-OMEGA. 1980. p.548.

[8] Evento onde ocorreu uma aliança das principais potências capitalistas (Inglaterra, EUA e França) com a URSS na luta contra a ameaça do Capitalismo de Exceção, o fascismo.

[9] LENIN, Vladimir I. Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. Rio de Janeiro, Editora Vitória, 1960. p.9.

[10] Conferir analise de Lênin sobre a necessidade de derrubar o estado em: LENIN, Vladimir I. O Estado e a Revolução In: LENIN, Vladimir I. Obras Escolhidas V: II. São Paulo, ALFA-OMEGA, 1980.